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Eu sou um poeta.
UM POETA EM VERBOS

Transformo o que é
Senso e sentimento em palavra,
O que é dúvida em pergunta,
O susto, o gozo, o medo, o grito,
Num registro de letras e exclamação.
Transcrevo, o mais precisamente,
A vida experimentada,
O desconforto, a delícia,
O sonho, a cara contra o muro,
O que se revela em língua não falada
Para a língua que se fala.
Transgrido, quando necessário,
A língua, pois que enquanto regra é contenção,
Por isso, há rebeldia no verso,
Porque poesia é apanhar o que é disperso
E fazer falar,
Não como quer a norma,
Mas como exige o anseio expressivo.
Transpiro...
Ou há quem acredite
Que as palavras se rendem fácil?
Não. Elas, que são tantas, e tão teimosas,
Que não nascem pregadas às coisas que nominam
E têm perninhas muito ágeis,
São difíceis de pegar,
E, mesmo depois de capturadas,
Não vão para as filas, que são os versos,
Senão ao custo de muito esforço.
Eu sou um poeta,
Meu ofício é transmitir,
Ato que se compõe de muitos outros.
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