sábado, 24 de março de 2012

Efémero



Ainda brilha a foice verde do teu olhar
na penumbra da cortina
da minha timidez

a tua voz corria entre os seixos devagar
inundava-me cristalina
a tua nudez

tuas mãos nas minhas mãos de par em par
erguiam na luz matutina
voos de avidez

lembro-me dos teus ombros e do luar
sob o lençol a carne vespertina
de se extinguir a palidez

oiço o rumor dos teus lábios ao despertar
o perfume da minha flor infinita
e a inevitável insensatez

insinuaste-te ou pareceu-me ouvir-te respirar
de súbito neste ínterim da escrita
ou ficaste quieta no talvez
como sempre

Lisboa, 24 de Março de 2012

Carlos Vieira

“Girl Reading a letter at an open window” Vermeer

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